MP denuncia homem pelo feminicídio e estupro tentado de Thaissa
Gabriel de Andrade segue preso pela morte a 44 facadas de Thaissa Marques, crime premeditado; família 'come pouco e acorda nas madrugadas'
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segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Gabriel de Andrade segue preso pela morte a 44 facadas de Thaissa Marques, crime premeditado; família 'come pouco e acorda nas madrugadas'

A Delegacia da Mulher de Londrina finalizou o inquérito policial que apurou a morte de Thaissa Oliveira Marques, de 21 anos, ocorrida em 11 de setembro na academia ainda em obras onde ela trabalhava. Gabriel de Andrade, 21, foi preso em flagrante logo após a ocorrência, indiciado pelos crimes de estupro tentado e feminicídio, com causa de aumento de pena por emprego de meio cruel e de recurso que dificultou a defesa da vítima. O procedimento foi remetido à 14ª Promotoria de Justiça de Londrina, para adoção das medidas legais cabíveis, com a denúncia oferecida e as qualificadoras acatadas nesta segunda-feira (21). O agressor deve ser submetido a júri popular.
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A jovem, graduanda em nutrição, foi atingida por 44 facadas, apontadas pela Polícia Científica de Londrina como a causa da morte junto de uma lesão sofrida na cervical. Thaissa havia sido contratada para distribuir panfletos e apresentar o espaço a possíveis clientes, visto que o estabelecimento estava prestes a ser inaugurado. A sequência de acontecimentos indica a premeditação, considerando que Andrade treinava em uma academia em frente ao imóvel onde o crime ocorreu e participou de uma entrevista com o gerente para integrar a equipe, mas foi reprovado. Os objetos que ele portava - uma faca e uma corda - eram de sua propriedade.
A delegada Carla Gomes, responsável pela investigação, informou que Andrade esteve no espaço no dia 8, três dias antes do homicídio. “Ele pediu para a própria Thaissa para verificar o local, alegando que queria conhecer as dependências da academia. Foi mostrado pra ele, e na sexta-feira ele retornou sob a mesma alegação.”
Inquérito robusto
Imagens de câmeras de segurança de comércios vizinhos compõem o inquérito, uma vez que a academia não possui dispositivos próprios em seu interior, e assim, não há comprovação visual efetiva do que ocorreu. “Mas tudo foi corroborado com as provas testemunhais, com os laudos periciais, que já estão todos concluídos, a exceção dos laudos que dependem da questão da violência sexual e também o laudo de local de morte, que acabou de chegar”, explicou Gomes.
Testemunhas e familiares prestaram depoimento. Os aparelhos celulares do agressor e da vítima foram apreendidos e encaminhados ao Departamento de Inteligência da PCPR (Polícia Civil do Paraná), com a delegada aguardando o exame de extração de dados.
Denúncia da Promotoria
A 14ª Promotoria de Justiça de Londrina denunciou Andrade pelos crimes de feminicídio e tentativa de estupro, apontando como causas para aumento da pena do feminicídio o fato de ter sido praticado com emprego de meio cruel - considerando a multiplicidade de golpes desferidos -, a dissimulação e com uso de recurso que dificultou a defesa da vítima.
Mauro Martins, que irá atuar como assistente de acusação para a família de Thaissa, destacou que “não há a qualificadora do motivo torpe e também não há o crime autônomo da ocultação de cadáver". "Nós vamos fazer uma manifestação no processo pedindo para que, se for possível, o Ministério Público faça um aditamento, ver se ele entende também por essas qualificadoras. Nós entendemos, sim, que está previsto, principalmente a ocultação a partir do momento que a porta sempre ficou aberta, ele fez questão de fechar a porta no intuito de ocultar o cadáver da Thaissa.” O advogado garantiu que se manifestaria no processo ainda nesta segunda (21).
A reportagem entrou em contato com a defesa de Andrade, mas não recebeu retorno até a publicação do material.
A delegada informou que o investigado segue preso preventivamente. “Sendo oferecida denúncia e recebida pelo Poder Judiciário, ele vai passar por um júri popular, pela natureza do crime por ele praticado e, ao final, o júri vai decidir a condenação e o juiz vai aplicar a pena”, adiantou Gomes. Após a repercussão do caso, duas mulheres procuraram a PC para denunciar o investigado pelo crime de invasão. “Elas apresentaram imagens das câmeras de segurança da residência e foi instaurado um inquérito policial para apuração desse fato”.
Transtorno do Espectro Autista
Gabriel de Andrade possui diagnóstico de TEA (Transtorno do Espectro Autista), sendo que a defesa juntou um laudo, datado de 2017, no processo. Sua médica apresentou o prontuário de atendimento do jovem, a pedido da delegada, confirmando a condição.
“Mas a gente não tem notícias do acompanhamento desse transtorno após o tratamento iniciado em 2017. Somente uma junta médica especializada vai poder dizer se no momento do fato ele tinha conhecimento do caráter ilícito que estava cometendo”, ou ainda, se “isso fez com que ele não tivesse conhecimento do que estava praticando”.
Afirmar que o homem cometeu o crime por conta de sua condição significaria “rotular essas pessoas como tendentes a praticar algum crime, o que não é verdade”, salientou Gomes.
‘Ficha não caiu’
Thaissa Marques tinha 21 anos, cursava o último ano da graduação em nutrição e se preparava para prestar o vestibular e iniciar o curso de direito. Morava com a mãe e o pai e era “gentil, brincalhona, determinada e estudiosa”, conforme descreveu sua irmã mais velha por parte de mãe, Thais Longuini.
A empresária de 26 anos contou que cresceu junto de Thaissa, proximidade que permaneceu firme ao longo de toda a vida da irmã. “Estávamos todos os finais de semana juntas em família. Gostávamos de ler, falar sobre assuntos da faculdade, e ela era apaixonada pelas minhas filhas gêmeas de cinco meses, então não tinha como ficar muitos dias longe”.
A jovem sonhava em atuar na área pública como nutricionista “para ajudar a saúde das pessoas”, e como advogada, planejava “defender as mulheres e a todos de maneira justa”. A família tem sofrido com a perda de Thaissa, “com choro, medicamentos, comendo pouco e acordando nas madrugadas”. A maior parte dos integrantes é mulher, com Longuini contando que, quando se reúnem, ponderam como os momentos seriam se ela ainda estivesse viva.
Contando que “a ficha ainda não caiu, de tão inacreditável” que a situação é, a empresária pontuou que Andrade “é um stalker, que não pode voltar para as ruas e matar de novo a filha de alguém”. “Que ele permaneça até a sua morte na cadeia”, completou.


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.





